O diretor Mike Flanagan já havia prendido antes a minha atenção com o filme Oculus, de 2013, e mais ainda com o ótimo thriller Hush, do começo desse ano. Se tem algo que parece em ascensão é a ideia de trazer um pouco de poesia e imaginação quase lúdica a um gênero tão calcado em repetitivos e infinitos clichês: o terror.
Antes de mais nada, uns poucos sustos aqui e acolá não fazem exatamente de Before I Wake (com mais um título horroroso em português, O Sono da Morte, isso sim assusta!) um baita filme de horror. Para que você vá melhor preparado ao cinema afim de embarcar na viagem proposta por Flanagan, pense nos filmes que você já viu e que lidam com a perda de entes queridos e com o medo da rejeição. Basicamente o que o longa propõe é que nós espectadores possamos compartilhar da dor de suas duas principais personagens: Jessie (Kate Bosworth, Quebrando a banca) e o indiscutivelmente “que-vontade-de-cuidar-pro-resto-da-vida” Cody (Jacob Tremblay, O Quarto de Jack).
A conexão estabelecida entre os dois nasce exatamente da dor de cada um. Jessie luta contra a depressão inerente que assola uma mãe após a perda de um filho ainda criança – aliás, preste atenção às palavras do terapeuta de Jessie nas sessões em grupo que ela frequenta, tentando aliviar sua perda, ele pode dar ótimas e reveladoras dicas do caminho que a história toma mais adiante. Cody, após a perda da mãe ainda muito novo, parece lidar bem melhor com a rejeição que surge nas famílias que pretendem adotá-lo depois de um certo tempo com ele.
Claro que nada é fácil para uma criança. É então que os sonhos e, principalmente, os pesadelos de Cody começam a traduzir a forma como ele enxerga o que acontece com ele. Pesadelos não são bonitos, incomodam e criam arrepios que percorrem o corpo. Porém, lembre-se que lá atrás, no primeiro pesadelo da saga Freddy Krueger, em 1984, Wes Craven já havia nos dado a preciosa dica do que fazer para não alimentarmos nossos medos e demônios: dê as costas aos monstros. Medo alimenta medo. Medo alimenta monstros. Não titubeie e nada acontecerá. Fácil? Não, claro que não, mas é mais ou menos disso que Flanagan tentou traduzir aqui. O problema é que nem sempre as soluções cinematográficas encontradas são as mais plausíveis, ou as que mais nos agradam. Temos vontade de fazer perguntas demais e isso estraga a “liberdade poética” que o diretor teve para traduzir os sentimentos de uma personagem como Cody.
O que resta então é ter consciência de que se o que você deseja é ser brutalmente assustado, esse não é o filme certo. Se você procura um pouco de consolo para dores que talvez só amenizem com o passar do tempo, O sono da morte pode vir a calhar – ainda que uns poucos sustos te peguem de jeito.